“Enquanto esperamos”

"Enquanto Esperávamos"


Por Virílio Sitole

 

Quarta-feira, 25 de Outubro de 2011. São 14h36. Está um dia de calor intenso, os sovacos experimentam outros odores, transpiro feito uma pulga vaidosa em pentelhos mal tratados. Estou correndo sem destino pela sala de exposições do Centro Cultural Franco-Moçambicano, na tentativa de providenciar pedaços de informações e condições para os nossos homens da pena, estes heróis amarrados à verdade, que lutam por informar o público sobre a actualidade política, social, económica e cultural. Quais “chefes” do Quarto Poder.

“Enquanto esperava” pela chegada dos senhores do “Quarto Poder” para dar início à conferência de imprensa sobre o Kinani, eis que, contrariando o que me levava àquele espaço cultural, deixei-me levar pelo impulso artístico e procurei, na minha pequenez e na ignorância sobre a análise da arte, “fragmentar” pelos olhos a exposição fotográfica que se encontrava ali imóvel, mas histórico, que, acredito, mexia com qualquer sensibilidade.

“Enquanto esperava”, aproximei-me para a parede branca onde estava colado o texto sobre a exposição do fotógrafo francês Eric Gauss, que dizia: “Esta colecção é uma interpretação fotográfica do impacto do ser humano sobre o meio ambiente A ameaça que está a correr através da actividade humana representa um dos maiores desafios actuais. Bem que eu não me considere como um activista, o meu trabalho tem como objectivo questionar as nossas visões do mundo. O título da exposição, “Enquanto esperamos”, sugere que temos tendência a esperar que alguma coisa aconteça, em vez de agir como indivíduos. A exposição faz com que cada um se questione sobre esta pergunta: Onde é que nos situámos em relação à problemática do meio ambiente?”.

Claro, “Enquanto esperava” pela resposta vinda de algum lugar, também me questionei de que estava à espera para “palmilhar” aquela exposição humilde, mas com uma mensagem clara e objectiva. Caminhando da direita para a esquerda da sala, um quadro de significado imensurável enfrenta-me para namorá-lo e interpretá-lo. Não exitei. Fixei meus olhos nele. Uma imagem a preto e branco, mostrando pinguins sofredores, vivendo num chão seco, mal tratados, ao redor deles, “escrementos” venenosos, formando uma jaula assassina. Os pinguins estavam condenados à morte pela decisão e acção do homem. Lágrimas caíram do fundo do coração. De que estou à espera?

À direita, um rosto violentado pelo tempo e pelas ondas contaminadas do mar fixa seu olhar em mim. Trato de desafiá-lo, não resisto. O impacto da morte está patente. O rosto está transfigurado, transformando-se em azul do mar. Ao lado, nota-se algo preto, tipo óleo venenoso, algo que me fez recordar os efeitos do famoso Katina P. Desanguetei e pulei para outra fotografia.

Um corpo deitado sobre o chão da morte cometendo o próprio suicídio, enrolado em arames desde a cabeça até ao fim do dedo do pé, em estado avançado de decomposição, corpo transformado em cor de cinza. Uma dor aos meus olhos e sentida no coração salta lentamente do tremer do organismo. Esta imagem mostra a acção do homem contra si mesmo. Há uma sentença declarada pelo homem para se exterminar, como resultado da sua ambição desmedida.

Virei à esquerda, tremia e suava freneticamente. Uma figura de um jovem gritava para mim, parecia que estivesse a pedir socorro. Aproximei-me daquele quadro com rosto doentio, olhos ensaguentados pelo meio ambiente poluído. Naquele instante, senti a sua voz perguntando: estás à espera de quê? “Enquanto esperas” nós morremos lentamente.

Não tive resposta. Procurei pelo fotógrafo francês Eric Gauss, não se encontrava lá. Pedi os préstimos do Pablo para me dar uma radiografia geral daquela exposição intitulada “Enquanto esperamos”, o bom do pablo falou, falou, mas nada entendi, pois, as imagens expostas naquela sala falavam por si; ilustravam-nos sobre os resultados das nossas acções; “matavam-nos” psicologicamente e de forma lenta.

Voltei a questionar-me do que estava à espera. Também não sabia. Mas sai daquela sala com a consciência de mim mesmo e das minhas acções. Porém, “Enquanto esper(o)amos” para que o outro mude de atitude, vamos abrindo a cova da nossa sepultura de forma precoce. Não devemos esperar mais, é altura de dizer basta à sacanagem sobre o meio ambiente!

quarta 18 janeiro 2012 04:10


OS LEÕES, AS PULGAS E AS BARATAS TONTAS

 

O Leõs, as pulgas e as baratas tontas

 

Por Virgílio Sithole

“Este mundo é uma profecia de mundos que hão de vir”.

(Edward Young)

 

Estamos acorrentados nas gaiolas da morte, a vida refugia-se no decesso pardacento da própria inexistência, é o inicio do ano de 2099 e o propalado fim do mundo. É o ultimo Dezembro dos sonhos do homem. É a humanidade em jogos ilícitos de Xadrez assassino na jaula de múltipla tempestade.

Nas bermas de uma vida selvagem, naquele qualquer tempo de 2099, a chuva mata as catadupas, o calor assassina o aguaceiro em luta de Golias, em socos e pontapés intermináveis. Há guerra por todos lados, o sangue jorra dos poros do chão sem vida, a morte caça a prórpria morte, tudo está à beira de extinção, do sumiço de toda espécie, os homens perderam as vozes, os olhos giram em torno do céu invisível e da alma devorada, os dentes mastigam a sua própria irmã língua, o mundo está sem rosto.

O universo acabou, tudo transformou-se em deserto, o espelho gira em volta de si mesmo, não há nada que se reflecte no cristal mágico, tudo raso, seco, os homens com as suas invenções e modus vivendi foram engolidos pela intempérie, voltou-se a vida selvagem e nómada. As vozes gravadas nos livros sagrados que profetizaram o fim da humanidade rasgaram as forças do mal e tudo ficou no silêncio, convertendo a sociedade lúcida em floresta-virgem domada pela traficância.

Entretanto, naquele vendaval que eliminou o mundo, alguns bichos da sorte sobreviveram. No deserto que se transformou em selva, só escaparam os leões, que devido ao seu poderio e estatuto que ostentam de Reis da Selva, resistiram a razia, com ajuda dos algozes do poder, as pulgas, essas, atrelaram na pelugem da juba do carnívoro, enquanto as baratas tontas, foram o resultado da podridão que assolou a região.

O mundo acabava de perder um poder instituído pela democracia popular com o colapso e posterior implosão do planeta, mas, porque a selva deve ter o régulo, o Leão impôs o seu poder absoluto, e guiou o tridente sócio-animal a seu bem prazer.

O novo território nasceu insolvente, aliás, sem vida, sem identidade, caracterizado pelo ajoelhar interminável para a sobrevivência, pelos pedintes e bajuladores da juba da fera indomesticável, uma vivência bizarra das sacanáveis pulgas, que se degladiavam em busca de uma visibilidade aos olhos do bando dos Leões insensíveis e traiçoeiros, e pelo deambular sem destino das baratas tontas em busca dos excrementos expelidos pelos leões.

Para lograrem os seus intentos na barra da justiça sobrevivencial e ganharem protagonismo e pontos na linha da frente para caçarem e darem coçegas na juba do rei, as pulgas congregaram-se em grupos distintos, controversos, oponentes e vaidosos. Entretanto, todos possuíam características fisiológicas semelhantes, uns exímios aduladores, que até são caixas de ressonãncia ao simples bom-dia do rugido Leão.

As pulgas fanáticas agruparam-se em Organização da Juba do Macho, protegendo de forma insolente o pensamento filosófico do Leão, o que causa tédio e ódio a outros grupelhos insanos.As pulgas menos favorecidas, somente com direito a parasitarem o resto do corpo do Rei, uniram-se e formaram a Congregação da Nação Jubilante, defensores e difusores dos dogmas maléficos do carnívoro. Em contra-censo, numa atitude de boicote, as pulgas do mal ou do oposto, que foram renegados como filhos da terra devido a sua ambição desmedida e sem direito as cócegas no corpo do Leão, formaram um grupo de oponentes denominada Pulgas na Janela, defensores das ideas democraticas e inspectores do poder do Leão na selva.

Algo engraçado na peleja destes grupos de pulgas, é que todos dizem defender o bem-estar das baratas tontas que vagueiam pela selva toda, sem rumo, sem esperanças, sem onde buscar seus alimentos, e até são esgamados pelas patas do Rei Leão nas latas do lixo.

Cansados de serem usados como meio para uma boa nutrição das pulgas bem como de assearem o palácio do Rei, as baratas tontas decretarm um suicído em bloco como protesto e, assim, a selva não terá quem limpar os excrementos dos Leões e os peidos das pulgas. Será o início de uma nova tempestade assassina que acabará definivamente com o mundo.

quarta 21 setembro 2011 01:50


VAMOS À VITÓRIA!

 Vamos à Vitória!


Por Virgílio Sitole

 

A tarde levantava poeiras atómicas no solo do meu quintal seco e dividido, propositadamente, por uns metros que servem para me aprisionar, ou seja, um espaço que se considere minha propriedade, onde em noites de transe, da dança sensual, possa vomitar o meu mundo das locubrações e com ele morrer solitário e feliz pelos prazeres da mundana imaginária.

Encontrava-me sentado no quintal da minha casa, debaixo do sol matinal, aquecendo o corpo em sensações sublimes e negando converter-me em pregador de fatalidades, onde somente a imaginação, a dor misturada com alegria, o sarcástico, rimava com o pranto, deixando as minhas alegorias minguarem com o vento e com a necessidade de vitórias multiplicadas.

Quando voltei ao meu estado normal, o rufar dos tambores penetrava nos ouvidos, vindo do vizinho Estádio Nacional de Zimpeto, ali próximo, na esquina, junto à casa da vitória, a bela que me retira o sono, alimenta-me o ego, mas foge-me de forma sorrateira, evitando os meus desejos temporais, mas não desisto, luto por uma vitória que me apaixona diariamente, que me obriga ao maquievelismo absoluto. vivo obsecado por esta mesma vitória, seja onde for e como ser, até como a tocar, só vivo pensando na vitória, a vitória que se encontra aqui nas minhas barbas, nas minhas fraldas, vendo bem, a doce vitória encontra-se na moçambicanidade. aliás, falando cultura e desportivamente, a desejada vitória reside nos Jogos Africanos.

Ora, na minha solidão e na busca incessante da "minha", ou por outra, da "nossa vitória", juro secamente, honrando com palavras sagradas, ajoelhado defronte do meu cordão umbilical, a confessar que acredito muito nos discursos da praxe, que nesta altura passam pelos diversos órgãos de comunicação social sobre os jogos africanos.

Estamos todos orgulhosos por aquilo que foi feito até chegarmos à data de hoje, em que oficialmente se dá à abertura oficial dos Jogos Africanos, uma data que ficará para a história de todos os moçambicanos. Entretanto, acredito que todos ficaremos ainda mais felizes e com os ombros bem altos, atrelados às cinco cores que compõe a bandeira da unidade se todos lutarmos em busca de uma vitória.

Estou a esfregar as mãos de ansiedade, de desejos e o corpo geme de tensão, pois, como dizia no início desta crónica, o rufar dos tambores invadiu a minha privacidade. portanto, espero que a minha "vitória", para não ser egoísta, a nossa "vitória", nos aceite logo na cerimónia de abertura dos Jogos Africanos. Quero acreditar na competência e na qualidade das pessoas envolvidas nos ensaios de montagem da cerimónia para nos brindarem com uma "vitória" logo no começo.

Todos queremos ver os bailarinos a demonstrarem a sua ambição, a sua técnica, o seu vigor, a sua destreza, o seu sorriso, trazendo-nos o brilho, o calor, a energia, aliada às cores, luzes e o som dos tambores a alimentar o nosso ego e orgulho de sermos moçambicanos, de sermos anfitriões dos maiores jogos do continente africano, onde os corpos se unem por um único objectivo, a vitória!

Ao celebrarmos o primeiro beijo com a nossa "vitória" hoje, dia da abertura dos jogos, as outras "vitórias" aparecerão de forma natural, claro, com empenho, dedicação, zelo, respeito pelos adversários, calculismo, e se quisermos, recorramos às palavras do estratega Sun Tzun: "quando és capaz de atacar, deves aparentar incapacidade e, quando as tropas se movem, aparentar inactividade. Se estás perto do inimigo, deves fazê-lo crer que estás longe; se longe, aparentar que se está perto. Colocar iscas para atrair ao inimigo", assim estaremos a fragilizar os nossos adversários e logo vamos alcançar inúmeras vitória no berço de Mondlane.

Porque só a vitória a todos nos interessa,  porque é da "menina" vitória que queremos pintar e apimentar de vermelho de amor a nação Moçambique, porque é com a vitória que queremos dormir e com ela nos enrolarmos e cantarmos a canção de amor profundo na versão africana e com ela gerarmos novas vitórias no campo cultural, económico, mas, acima de tudo desportivo, e na felicidade ilimitadada beijarmo-nos em solavancos ininterruptos nas noites das vitórias retumbates, recorremos de novo ao estratega Sun Tzu para dele buscarmos incentivos para os nossos artistas e atletas poderem dar-nos muitas vitórias e sorrisos brilhantes, ou seja, por favor, "sejam rápidos como o trovão que retumba antes que tenham podido tapar os ouvidos, velozes como o relâmpago que brilha antes de haver podido piscar", para que em noites de louvores possamos acobertar-nos todos juntos com o cobertor do amor das vitórias.

 

segunda 12 setembro 2011 02:28


O PROFESSOR DOS CORPOS

O professor dos corpos

 

Por Virgílio Sitole

 

Há “edifícios” humanos que se tornam marcos na história da humanidade ou patrimónios culturais, intelectuais ou ainda compêndios dos povos, não pelo decreto das diversas organizações responsáveis pela preservação do legado que definha em muitas regiões do mundo, mas em muitas ocasiões, como neste caso, se revelam coreógrafos da sua história e vida como resultado do empenho e determinação no desenvolvimento da sua cultura e transmissão dos valores que sustentam uma sociedade dentro dos seus padrões sócio-culturais.

Recentemente, num dos nossos olhares coreográficos que nos caracteriza, interpelámos uma figura que representa um espaço e livro aberto por explorar, um homem cuja trajectória artística suplanta a grandeza dos países que palmilhou na divulgação das artes moçambicanas e também duplica a distância que percorreu na busca da ilustração cultural que se espalha nesta imensa pérola oceânica.

Minhas senhoras e meus senhores, caros leitores, falar de Júlio Armando Matlombe é o mesmo que falar de uma terra coberta de ouro que brilha sem ser explorado e o tempo poderá ser fatal e se encarregar de fechar este “manual ambulante” que grita nas ruas de amargura.

Esta figura grita, murmura e quer vomitar algo, não clama pelo custo de vida, pois essa castra até os que circulam com os homens nos seus orgasmos. Não reclama homenagens muito menos estatuto de rei ou de lorde em palácios banhados de ouro. Júlio Matlombe já por si é ouro, vive a arte, respira a dança, bebe a cultura e com artes cénicas sustenta o seu ego que a cada dia que passa se sente inútil por falta de pessoas para transmitir o seu saber e experiência.

Dizíamos que este homem que nasceu em Ucalanga, Manhica, a 15 de Agosto do longínquo ano da 1957, é uma terra coberta de ouro ou por outra, um céu ilimitado de conhecimentos que se edificou pela sua forma de saber ser e estar, bem como saber fazer, ou se quisermos, saber dançar e ensinar os outros.

Com um carácter artístico magnânimo, “Malume” como o trato na nossa camaradagem das trincheiras culturais ou simplesmente “Professor Matlombe” como é carinhosamente chamado pelos seus alunos, é obreiro do surgimento da legião de artistas que hoje passeiam a sua classe nas salas de teatro em Moçambique e pelo mundo fora, alguns deles dulcificaram as tardes da dança ao seu lado na CNCD, como são os casos de Abel Fumo, Sandra Mahumane, Dawanivéria Mafunga, o autor destas linhas, entre outros.

Pesquisador da dança e musica tradicional Moçambicanas, Matlombe é um artista de vigor imensurável e um homem incansável na transmissão de conhecimentos sobre a dança e pelo seu ímpeto de comunicar através do corpo e guiado pelos princípios da transversalidade da arte de dançar, emprestou a sua sabedoria na edificação de grupos que faziam a miscelânea do teatro, musica e dança, como exemplos temos os grupos Voz Verde e Nambu (1991), bem como o grupo de dança da Casa de Cultura do Alto-Maé (1992).

Ao olharmos para o trajecto artístico deste que é considerado o mestre da Makwaela e um dos melhores solista de Xigubo, somos impelidos pela sua historia e pelo número de artistas por ele formados a considerá-lo um “professor do silêncio”, aliás, “professor dos corpos”.

É no silêncio do som dos tambores que esculpe os corpos dos bailarinos, com uma paciência incomparável, não hesita despir o fato e gravata e transpirar na transmissão de técnicas e movimentos aos candidatos a bailarinos. Não se cansa de puxar dos galões e calmamente adornar e empolar de Niketxe, de Nganda, de Semba, de Xiparatwana e mesmo da Marrabenta, ele movimenta a cintura mais que as próprias mulheres para fazer ver que na arte não há dança de mulheres ou de homens, mas sim, dança para os povos se espelharem e dela descongestionar os obstáculos da vida e, também, dela prover a alma de instrumentos de satisfação humana.

Ao analisarmos os desenhos que compõem os “doutos” corporais que saíram da escola “Matlombiana” e o quadro artístico evolutivo do “professor dos corpos”, notámos que a cada passo ou movimentos que estes artistas expressam há uma nova construção da identidade artística desta escola, abrindo-se, dessa forma, novas possibilidades de se edificar novos caminhos ou, se quisermos, um recanto que vai assegurando a continuidade que, por ora, nos parece ameaçada.

Arriscámos dizer que esta continuidade está ameaçada porque, de uns tempos para cá, nota-se uma fuga massiva de novos “recrutas” que procuram pela escola “Matlombiana, aliado a escassez dos espaços/grupos onde este senhor das artes e biblioteca viva pode transmitir os seus conhecimentos e experiência.

Júlio Armando Matlombe é um dos artistas - bailarinos que como coreógrafo pode não ter-se notabilizado muito, apesar de ter criado a obra “Cidade Nossa” e ter recriado com sucesso a coreografia Xitukulumukumba, é no ensino e transmissão de conteúdos técnicos - artísticos que o seu talento vem ao de cima o que faz dele um professor nato e que os jovens deviam aprender muito com ele sobre a historia, coreografias e técnicas no que diz respeito ao domínio e poder social da danças tradicionais moçambicanas e não só.

Como se escreve na brochura Ode à Paz (CNCD, 1994), Matlombe “fez o mundo delirar com o virtuosismo do seu talento que, em movimentos de apoteose representativa, oferece uma visão entre o espiritual e o mitológico” e acrescentámos, que faz dele uma referência nacional e internacional como professor da dança tradicional que dele devemos aprender diariamente. Neste Agosto que planta mais uma rosa na vida dançando na escuridão e na leveza dos corpos besuntados pela diversidade cultural em galopes infindáveis, sendo sementes da escola “Matlombiana”, queremos dizer: “Phambeni Malume”!

 

segunda 29 agosto 2011 01:12


Nação nublada

Nação nublada

 

Por Virgílio Sitole

 

A noite desbravava a inocência na busca de sonhos enlatados em loucuras externas. A escuridão barrava louca e secamente meus caminhos e sonhos de infância na barra da justiça literária.

Lentamente flecti sobre mim mesmo na busca do meu gêmeo escondido num papel em branco por cima da jaula poética. Sofregamente, a loucura divagava sobre íntimo meu espalhado em latitudes acima dos espasmos das mãos trémulas.

A verdade custava e negava intensamente em aparecer definhando cada vez mais a crise cerebral nas noites de dilúvio mental, forçando aos papeis brancos se espalharem sem os ver. Na sacanice nocturna o galo cantarolava rudemente ditando-me o cântico poético das noites das trevas.

Surdo e cego que me apresentava, o eco do quiquirigó confundia-se com a imensidão da podre ambição política e dos políticos frustrados e corruptos.

Na longa disputa cerebral, a poesia teimava em aparecer na escuridão misteriosa da masturbação poética, onde, de caneta ríspida sonhava em escrever a poesia da liberdade, a poeisa da dança misteriosa, porém, a mente, esse estrume fertilizante que precisa de adubos artificiais, caducava-se mil vezes sem conta, iluminando a prosa poética em sucos da inspiração em noites de transe do feitiço.

Lentamente, com apoio dos defuntos da noite em procriação, a mão moveu-se desenhando em grafias da época dos nómadas a palavra Nação, desfazendo a crise poética que lutava por um lugar no meu horizonte literário, onde, no plebiscito das escolas irracionais e de juramentos a sacrifícios, a nação posou e comigo vive em tremendas lutas contra os contra-nação, contra os corruptos, contra a selvagem, a favor de uma dança livre ao som do cantar gutural da pomba semeando em mim o verde da paz infinita.

Nesta extensa margem da nação nublada ocorre tudo menos nada. Os motores roncam intensamente nas estradas sanguinolentas, os becos e as ruas estão lotados pelos "ninjas" que assombram a vida do alheio, cuja agressividade atormenta o sossego dos inocentes que lutam no silêncio em busca do seu bem-estar.

Das estradas soa o grito de alerta. Acidentes de carros com condutores irresponsáveis ceifam vidas humanas. O doce sorriso da moçambicanidade é violada na jaula corrupta do ambicioso sem escrupulos, na escala nacional, as zangas dos comadres descarregam obuzes letais sobre o pobre e pacífico povo.

A nebulosa nuvem da nação liberta consigo inexplicáveis casos perpétuos com cheiro a malandragem. Do norte cai uma torrente chuva sobre os contentores do proíbido "Monzo" ilícitamente destruído e embalado e pronto para "zarpar" para esse destino impronunciável, cuja explicação roça a palhaçada, e como resultado, ameaça a continuidade do fabrico da timbila.

Nas ruas de amargura, com bacias na cabeça em busca da alegria estomacal, circulam os sobrevientes da penúria cujo destino está condenado ao fracasso. Nas suas lutas diárias, os filhos da Terra dos Heróis enfrentam a Camarária, em correrias loucas só vistas na Fórmula 1, e no fim do dia, paralisam tudo, zangam-se, e a ginástica de apontar os dedos uns ao outros começa e, numa viragem cósmica, recua-se a tudo e nasce um nado morto nocesto basico.

Na nação os homens lutam para sobreviver da morte anunciada. O amor desiste da sua luta e surge o calvário da dança do interesse em bens materiais e o salve-se quem poder. Ele procura uma mulher endinheirada para sobreviver, ela busca no homem o conforto para rebater as necessidades. O amor morre com a sobrevivência no leito da nação nublada.

Porém, nas noites da lua cheia, os filhos da nação unem-se e vem ao de cima a compaixão, choram juntos pela morte do filho, os homens recuam no tempo e atiram, por momentos, o sofrimento e buscam a alegria, a beleza da vida, e o sorriso retorna aos lábios secos através da dança.

Na entrada daquele majestoso Estádio Nacional de Zimpeto, reina a esperança da nação nublada. Num movimento impróprio para os não artistas, nota-se uma entrega total de crianças, jovens e adultos mexendo os corpos em prol do sucesso do Cojito, aliás, dos Jogos Africanos.

No epílogo da noite da busca incessante dos sonhos da nação, o mocho da sorte segreda-me: vislumbra-se uma luz verde para desnublar a nação por uns dias, para tal, todos temos de dar um pouco de nós para o sucesso deste evento que seráum momento ímpar para marketizara nação Moçambique além fronteiras.

terça 09 agosto 2011 02:15


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